3. ESPECIAL PAPA FRANCISCO 20.3.13

1. A ESCOLHA  FRANCISCO, O SIMPLES 
2. AS IDEIAS  O MUNDO E A F SEGUNDO BERGOGLIO
3. ORDEM RELIGIOSA  A TROPA DE CHOQUE DA IGREJA
4. A IGREJA NA POLTICA  E AGORA CRISTINA? A IGREJA NA POLTICA  E AGORA CRISTINA?

1. A ESCOLHA  FRANCISCO, O SIMPLES 
A Igreja Catlica tenta voltar  essncia, com a eleio de um pastor de alma modesta para cuidar do seu rebanho ameaado pelo laicismo e dar fim s ovelhas sujas.

Vs sabeis que o dever do conclave era dar um bispo a Roma. Parece que os meus irmos cardeais foram quase ao fim do mundo para busc-lo. Eis-me aqui!

HUMILDADE
No balco da Baslica de So Pedro, abenoado pela multido, Jorge Mrio Bergoglio pediu que rezassem por Bento XVI, a quem chamou de "bispo emrito", e por ele prprio.

OS ELEITORES NA SACADA
Aos cardeias que o levaram ao Trono de Pedro, o novo pontfice chegou a dizer, em tom de brincadeira, uma frase que os fez rir: Caros irmos, que Deus os perdoe

ADRIANA DIAS LOPES E MRIO SABINO, DE ROMA

Caros irmos, que Deus lhes perdoe." Foi com essa frase, entre o divertido e o revelador de sua alma modesta, que o ex-argentino e ex-Jorge Mrio Bergoglio aceitou ser papa da Igreja Catlica, diante dos cardeais eleitores reunidos na Capela Sistina. Daquele momento em diante, ele passou a ter todas as nacionalidades (ou seja, nenhuma) e nova identidade: Francesco, ou Francisco, em portugus. Quase uma hora depois, uma eternidade para as 100.000 pessoas que esperavam pelo nome do sucessor de Bento XVI, na chuva que se alternava de fina a grossa na Praa de So Pedro, eis que se ouve o Habemus papam, proferido com dificuldade pelo cardeal francs Jean-Louis Tauran, doente de Parkinson. O papa Francisco, cuja figura at ento era familiar apenas a seus conterrneos, assomou ao balco da baslica, saudou os fiis com a mo direita, o brao esquerdo junto ao corpo, como se paralisado, e esperou  olhos arregalados  que lhe colocassem o microfone. 
     Foi o primeiro silncio da noite memorvel, ao vivo bem mais longo do que pela televiso. Um silncio de um papa que parecia examinar a multido, e de uma multido que perscrutava o papa recentssimo. Foi quebrado pela fala, em italiano impregnado de sotaque espanhol, do Francisco que, agora Bispo de Roma, achado "quase no fim do mundo", como o prprio brincou, pedia a todos que rezassem pelo Bispo Emrito da cidade, seu antecessor. Ao Pai-Nosso e  Ave-Maria, recitados como numa aula de catecismo, seguiu-se outro pedido  o de que rezassem silenciosamente por ele. Inclinado em reverncia, como se recebesse um sacramento, o papa Francisco foi abenoado pela multido. H qualidades diferentes no silncio. Neste, a comunho substituiu o estranhamento do primeiro. A multido gostou do novo papa. "Como  doce, como  simples", dizia-se. A multido aprovou a escolha do ex-Bergoglio. "Finalmente, o Poverello  homenageado", comentava-se. Il Poverello (O Pobrezinho)  como os italianos chamam, carinhosamente, So Francisco de Assis. 
     O papa Francisco no saiu da ordem franciscana, mas da jesuta. E esse  um dos seus primados. Jamais houve outro pontfice proveniente das fileiras da Companhia de Jesus, seja por se tratar de corporao poderosa  seu superior  conhecido pelo apelido de "Papa Negro", em referncia  cor da batina , com histria cheia de percalos dentro e fora da Igreja (veja a reportagem na pg. 72), seja porque, moldada  vocao missionria, ela nunca fez muitos cardeais. Segundo ineditismo, visto que o lapso  demasiado longo at para uma instituio que se move ao passo dos sculos: Francisco  o primeiro pontfice no europeu em 1200 anos. Um terceiro, ligado ao anterior:  o primeiro papa vindo da Amrica Latina. Em consonncia com a universalidade da Igreja, um papa no tem nacionalidade, enfatize-se, mas  indubitvel que o fato de ter nascido na regio com o maior nmero de catlicos do mundo pesou, e bastante, durante o conclave.  esperado que o Vaticano dedique ainda mais ateno ao subcontinente, assim como  inevitvel que a Argentina, em especial, passe a frequentar com assiduidade o noticirio internacional  inclusive porque o novo pontfice no mantm as melhores relaes com o governo de Cristina Kirchner (veja a reportagem na pg. 78). Buenos Aires demorou uma hora e meia para encaminhar uma mensagem de congratulaes ao Vaticano. Ele tambm  o primeiro chefe da Igreja a chamar-se Francisco  o que no o torna "Francisco I, como publicam alguns jornais. Oficialmente, ele s o ser se houver um sucessor com nome idntico. 
     A Igreja Catlica tenta voltar  sua essncia, com a eleio de um pastor de alma simples, para cuidar de um rebanho ameaado pelo laicismo e, no menos relevante, dar fim ao clero pedfilo e corrupto. Nesse sentido, a noite de 13 de maro de 2013 foi recheada de significados. 
     A opo por "Francisco" constitu uma carta de intenes. A hiptese de que o novo pontfice, no importa quem fosse ele, reverenciasse So Francisco de Assis vinha sendo levantada na Itlia, e a ousadia se confirmou. O santo, nascido em 1182, na pequena cidade da mbria, no centro da pennsula, viveu somente 44 anos  e, contudo, produziu um terremoto no catolicismo. Ao renunciar  posse de todos os bens materiais e defender um cristianismo purificado pelo ascetismo, o jovem rico de Assis, filho de um comerciante de tecidos, atraiu um sem-nmero de seguidores descontentes com uma Igreja que se afastava do povo  medida que enriquecia. Embora tenha sido logo assimilada pelo papa Inocncio III, e forjado onze pontfices, a ordem franciscana sempre manteve uma atitude de desconfiana com a Santa S, no que foi correspondida. Por uma questo tambm de, digamos, estilo, Paulo VI afirmou ser impensvel que um papa de nome "Francisco" pudesse morar no Vaticano, porque a contradio saltaria aos olhos. Pois foi um jesuta a contradiz-lo. 
     No plano ordinrio das aes humanas, a escolha do nome indica que o novo pontificado ser marcado pela austeridade. Urge uma reforma na Cria Romana, o aparato administrativo-burocrtico que determinou a renncia de Bento XVI, depois de ele descobrir a extenso e profundidade dos escndalos protagonizados pelo cardeal Tarcsio Bertone, seu secretrio de Estado. Presume-se que, sob Francisco, a limpeza da Cria ocorrer no s por intermdio da nomeao de religiosos honestos para seus cargos-chave, mas por meio da criao de uma estrutura mais horizontal. O vento comeou a soprar na direo da faxina to logo o conclave foi concludo. O papa emrito, recluso em Castel Gandolfo, prximo a Roma, recebeu um telefonema do novo pontfice antes do Habemus papam. At o fechamento desta edio, estava prevista uma visita de Francisco a Joseph Ratzinger. No  improvvel que eles conversem sobre o relatrio guardado nos apartamentos papais que detalham as desonestidades de Bertone e companhia. 
     Na fala inaugural, Francisco forneceu uma chave de leitura de seu pontificado. Referiu-se a si como "bispo de Roma" e a Bento XVI como "bispo emrito". No usou a palavra "papa" uma nica vez. Ele  est a mais um primado   o primeiro pontfice, desde Joo XXITI, a no ter participado do Conclio Vaticano II. Convocada em 1961, por Joo XXIII (de origem humilde e, ateno, franciscano), concluda em 1965, por Paulo VI (descendente de famlia nobre), essa grande assembleia interna propunha a participao do bispado nas decises da Santa S, de maneira semelhante ao que acontecia nos primrdios eclesisticos. Tendo em vista a sua nfase em definir-se como bispo, especula-se, no sem que se observe a ironia embutida nisso, que Francisco, um no conciliar, talvez seja finalmente o papa que se disponha a concretizar as propostas mais avanadas do Vaticano II, no que concerne ao governo da Igreja  e, assim, faa com que os bispos voltem a ter importncia. Por fim, ao pedir aos milhares de fiis na Praa de So Pedro que rezassem, Francisco acenou para um empenho na rea pastoral. A Igreja h muito reclama a ausncia de um grande pastor, papel para o qual o refinado telogo Bento XVI era nada propenso. 
     O papa Francisco, o simples, nasceu em Buenos Aires, em 17 de dezembro de 1936, filho de um casal de imigrantes italianos do Piemonte. Seu pai, Mrio Bergoglio, era ferrovirio, e sua me, Regina Maria Sivoni, dona de casa. Aos 20 anos, ele sofreu uma grave infeco respiratria e teve um dos seus pulmes extrado. Aos 21, depois de desistir da carreira de tcnico em qumica, entrou para o noviciado da Companhia de Jesus, e se formou em filosofia. Foi ordenado sacerdote em 13 de dezembro de 1969. Em 1970, graduou-se em teologia. Aos 36 anos, tornou-se responsvel pela ordem jesuta na Argentina, funo exercida at 1978. Entre os anos 70 e 80, lecionou filosofia e teologia em escolas de Buenos Aires. Seria reitor da Faculdade de Filosofia e Teologia de San Miguel, onde estudou. Em 1986, passou alguns meses na Alemanha, para finalizar sua tese de doutorado. Em 1992, foi designado bispo auxiliar de Buenos Aires; em 1998, arcebispo primaz da Argentina. O ttulo de cardeal lhe foi concedido em 21 de fevereiro de 2001, no papado de Joo Paulo II. 
     Bergoglio mantinha hbitos espartanos. Sua rotina de trabalho comeava s 4 e meia da manh e terminava s 9 horas da noite. Morava sozinho, em um apartamento no 2 andar do edifcio da arquidiocese, ao lado da Catedral de Buenos Aires, na Praa de Maio. Fazia sua prpria comida. Andava de nibus e de metro. Ao ser nomeado cardeal, no comprou batina nova  pediu que lhe fosse dada a de seu antecessor, Antonio Quarracino, morto havia trs anos. E props aos fieis desejosos de vir  Itlia, para acompanhar a entrega do chapu cardinalcio, que doassem aos pobres o dinheiro destinado  viagem. Esteve no Brasil em 2007, para a 5 Conferncia do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, realizada em Aparecida, durante a visita de Bento XVI.  um dos que assinam o documento final do encontro, com forte mensagem evangelizadora: "No mais esperar que o povo v  Igreja, mas levar a Igreja at o povo". O primeiro amlgama entre o pastor e os fiis , como se viu na noite de 13 de maro, a orao. Fazia tempo que no se rezava um Pai-Nosso e uma Ave-Maria de forma to unida e fervorosa na Praa de So Pedro. 
     O cardeal Bergoglio desembarcou em Roma duas semanas antes do incio do conclave. No usou o carro do Vaticano  sua disposio. Ia a p para a Santa S, onde se desenrolaram as congregaes-gerais  mas, convenhamos,  um prazer andar em Roma. Aos 76 anos, parecia velho demais para enfrentar o jogo pesado imposto por uma Cria corrupta e pervertida. Em 2005, no entanto, ele foi o principal oponente de Ratzinger, nas quatro votaes do conclave vencido pelo ex-alemo  e esse ponto no passou despercebido aos cardeais que o elegeram. Deram a vez ao homem que poderia ter sido papa h oito anos. VEJA apurou que, na primeira das cinco votaes, os votos se distriburam entre vrios nomes. Na segunda, trs candidatos se destacaram: Bergoglio, o italiano Angelo Scola, considerado o favorito, e o canadense Marc Ouellet, outra opo citada ao nome lanado pela Cria, o do brasileiro Odilo Scherer. A vantagem de Bergoglio consolidou-se no terceiro escrutnio. No quinto, ele obteve um "grande consenso". A Capela Sistina explodiu em aplausos quando se atingiu o mnimo de dois teros dos votos, 77 de 115. Um dos principais articuladores da candidatura vitoriosa foi Oscar Maradiaga, de Honduras. "Caros irmos, que Deus lhes perdoe", disse o papa Francisco. Que tenham feito a escolha certa. 

DA ESCOLA DE QUMICA AO CARDINALATO
OPO TARDIA - Jorge Mrio Bergoglio (em foto sem data), filho de um casal de imigrantes do Piemonte - o pai era ferrovirio e a me, dona de casa -, ingressou no noviciado da Companhia de Jesus aos 21 anos.
ESCOLA PREPARATRIA - Com amigos de classe, apaixonado pelas aulas de qumica, que abandonaria definitivamente pela vida pastoral, na Buenos Aires elegante do incio dos anos 50.
EM FAMLIA - Ento padre, j muito respeitado pela hierarquia dos jesutas na Argentina, ao lado dos irmos Alberto Horacio, Oscar Adrian, Marta Regina e Maria Elena e dos pais, Regina Maria e Mrio Jos.
ENTRE OS POBRES - As visitas s favelas de Buenos Aires foram uma de suas marcas  frente da arquidiocese. No esperava que a Igreja fosse at o povo, levava-a at ele, como anotou no documento final da 5 Conferncia-Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, em 2007.
COTIDIANO PORTENHO - J arcebispo, dispensou o carro com motorista. Preferia o nibus ou o metro, como nesta foto de 2007, em Buenos Aires. Recusou uma nova batina ao ser nomeado cardeal. Usava a do antecessor.
NO CONCLAVE DE 2005 - No ritual da eleio de Bento XVI, Bergoglio foi o segundo mais votado entre os cardeais, atrs apenas de Joseph Ratzinger. Na foto, ele aparece ao entrar na missa que antecedeu o fechar de portas da Capela Sistina.
PARCERIA - O homem que poderia ter sido escolhido h oito anos telefonou para o papa emrito Bento XVI logo depois de se tornar Francisco. Marcaram um encontro.  provvel que tratem dos relatrios sobre as desonestidades da Cria.


2. AS IDEIAS  O MUNDO E A F SEGUNDO BERGOGLIO
Como arcebispo de Buenos Aires, o novo pontfice refletiu com clareza  e simplicidade at exagerada  sobre questes fundamentais do cotidiano.

ABORTO
O problema moral do aborto  de natureza pr-religiosa. No momento da concepo est o cdigo gentico da pessoa. Ali j existe um ser humano. Separo o tema do abono de qualquer concepo religiosa.  um problema cientfico. No permitir o desenvolvimento de um ser que j dispe do cdigo gentico de um ser humano no  tico. Abortar  matar algum que no pode se defender.

ATESMO 
Quando eu me encontro com pessoas ateias, compartilho com elas as questes humanas, mas no coloco logo de cara em discusso a questo de Deus, exceto se elas me incitam a isso. Quando isso ocorre, eu explico a elas por que creio. (...) No pretendo fazer proselitismo  eu as respeito e me mostro como sou. (...) No tenho nenhum tipo de reticncias. No diria que um ateu est condenado porque estou convencido de que no tenho o direito de julgar sua honestidade  sobretudo se ele tiver virtudes, aquelas que engrandecem as pessoas. De toda forma, conheo mais gente agnstica do que ateia. O agnstico duvida: o ateu est convencido. Temos de ser coerentes com a mensagem que recebemos da Bblia: todo homem  a imagem de Deus, seja ele crente ou no. Por essa nica razo, tem uma srie de virtudes, qualidades, grandezas. Caso tenha baixezas, como eu tambm as tenho, podemos compartilh-las para nos ajudarmos mutuamente a super-las. 

CINCIA
A cincia tem sua autonomia, que deve ser respeitada e encorajada. No se deve interferir na autonomia dos cientistas. Exceto se extrapolarem seu campo de atuao e se envolverem com o transcendente. A cincia  fundamentalmente instrumento do mandato de Deus, que disse: 'Tenham muitos e muitos filhos, espalhem-se por toda a terra e a dominem'. Dentro de sua autonomia, a cincia transforma a incultura em cultura. Mas cuidado: quando a autonomia da cincia no pe limites a si mesma e vai alm, ela pode sair das mos de sua prpria criao.  o mito de Frankenstein.

CRENA 
A Igreja defende a autonomia das questes humanas. Uma autonomia saudvel  uma laicidade saudvel, em que se respeitam as diferentes competncias. A Igreja no vai dizer aos mdicos como devem realizar uma operao. O que no  bom  o laicismo militante, aquele que toma uma posio antitranscendental ou exige que o religioso no saia da sacristia. A Igreja d os valores, e os outros que faam o resto. 

DEUS 
Ao homem de hoje lhe diria que faa a experincia de entrar na intimidade para conhecer a experincia, o rosto de Deus. Por isso me agrada tanto o que disse J depois de sua dura experincia e de dilogos que no lhe esclareceram nada: 'Antes eu te conhecia s por ouvir falar, mas agora eu te vejo com meus prprios olhos'. Ao homem, digo que no conhea a Deus de ouvidos. O Deus vivo  aquele que se v com seus olhos, dentro de seu corao. 

DIVRCIO
A discusso em torno do divrcio  diferente daquela do matrimnio de pessoas do mesmo sexo. A Igreja sempre repudiou a lei do divrcio, mas h antecedentes antropolgicos distintos neste caso. (...)  um valor muito forte no catolicismo o casamento at que a morte os separe. Hoje, contudo, na doutrina catlica, lembra-se a seus fiis divorciados e recasados que eles no esto excomungados  ainda que vivam em uma situao  margem do que exigem a indissolubilidade matrimonial e o sacramento do matrimnio  e  pedido a eles que participem da vida paroquial. 

IGREJA
Uma coisa boa que aconteceu com a Igreja foi a perda dos Estados Pontifcios, porque deixa claro que a nica posse do papa  meio quilmetro quadrado. Mas, quando o papa era rei temporal e rei espiritual, a se misturavam as intrigas de corte e tudo isso. Agora no se misturam? Sim, ainda existe isso, porque existe ambio em homens da Igreja, existe  lamentavelmente  pecado de carreirismo. Somos humanos e nos tentamos, temos de estar muito atentos para cuidar da uno que recebemos, porque ela  um presente de Deus. As disputas pelo poder, que existiram e existem na igreja, se devem a nossa condio humana. Mas, nesse momento, a pessoa deixa de ser eleita para o servio e se converte em uma pessoa que escolhe viver como quer e se mistura com o lixo interior. 
Um lder religioso pode ser muito forte, muito firme, mas isso sem exercer a agresso. Jesus disse que aquele que manda deve ser como aquele que serve. Para mim, essa ideia  vlida para a pessoa religiosa de qualquer credo. O verdadeiro poder de uma liderana religiosa vem de seu servio. Quando deixa de servir, o religioso se transforma em um mero gestor, em um agente de ONG. O lder religioso compartilha, sofre, serve a seus irmos.

PEDOFILIA 
Que o celibato traga como consequncia a pedofilia est descartado. Mais de 70% dos casos de pedofilia se do no entorno familiar e na vizinhana: avs, tios, padrastos e vizinhos. O problema no est vinculado ao celibato. Se um padre  pedfilo, ele o  antes de ser padre. Agora, quando isso ocorre, jamais se deve fazer vista grossa. No se pode estar em uma posio de poder e destruir a vida de outra pessoa. (...) No creio em posies que pleiteiam sustentar certo esprito corporativo para evitar danos  imagem da instituio. Esta soluo creio que foi proposta certa vez nos Estados Unidos: mudar os padres de parquia. Isso  uma estupidez porque, dessa forma, o padre leva o problema na bagagem. A reao corporativa leva a tal consequncia, por isso no concordo com essas medidas. Recentemente, na Irlanda, foram revelados casos aps vinte anos, e o papa disse claramente: Tolerncia zero com este crime'. Admiro a valentia e a retido de Bento XVI sobre esse assunto. 

TENTAO 
A vida crist tambm  uma espcie de atletismo, de disputa, de corrida, em que  preciso se desvencilhar das coisas que nos separam de Deus. Alm disso, quero salientar que uma questo  o demnio e outra  demonizar as coisas ou as pessoas. O homem est sob tentao constante, mas no  por isso que temos de demoniz-lo. 

UNIO HOMOSSEXUAL 
No sejamos ingnuos: no se trata de uma simples luta poltica. Pretende-se a destruio do plano de Deus.  uma jogada do pai da mentira para confundir e enganar os filhos de Deus.


3. ORDEM RELIGIOSA  A TROPA DE CHOQUE DA IGREJA
Fundada no sculo XVI por Incio de Loyola, um ex-militar espanhol, a Companhia de Jesus tem uma dedicao histrica  propagao da f. Foi nessa disciplina missionria que se formou o papa Francisco.
JERNIMO TEIXEIRA

     Bastaram alguns cartazes espalhados por Paris, em outubro de 1534, para lanar a cidade em um frenesi de violncia religiosa. No esprito provocador da Reforma, os panfletos denunciavam a falsidade da missa papal, atacando uma das bases doutrinrias do catolicismo: a transubstanciao, na Eucaristia, do po e do vinho em carne e sangue de Jesus. Em resposta, o rei Francisco I conduziu procisses solenes. Protestantes foram perseguidos, espancados, mortos. Alguns foram queimados em frente  Catedral de Notre Dame. Pode-se supor que a tenso que eclodiu nesses episdios tenebrosos j estivesse latente dois meses antes, quando sete companheiros de devoo, com idade entre 19 e 43 anos, se reuniram para uma cerimnia simples em uma capela do bairro de Montmartre. Mas a reunio se deu na mais disciplinada serenidade: o grupo fez votos de obedincia  Igreja Catlica, e Pierre Favre, o nico que j havia sido ordenado padre, oficiou uma missa. Lanava-se ali a semente de um empreendimento monumental, que se desenvolveu nos cinco continentes e atravessou cinco sculos at alcanar, na semana passada, a consagrao superlativa do papado. A Companhia de Jesus, ordem  qual pertence o papa Francisco, dedicou-se sobretudo ao ensino e  propagao da f. Da China  frica, do Canad ao Paraguai, os jesutas  como so chamados os membros da Companhia  levaram a cruz a todos os recantos do planeta. Se o esprito orientador da ordem serve como pista para a atuao do novo papa, pode-se esperar o compromisso missionrio de propagar e defender a f catlica  e, se o esforo no sculo XVI era fazer frente aos reformadores Lutero e Calvino, agora o desafio  conter a sangria que as igrejas neopentecostais tm promovido no rebanho catlico. Tambm se poder prever uma inabalvel ortodoxia doutrinria: fundada por um ex-soldado, a Companhia de Jesus exige disciplina frrea e obedincia absoluta de seus membros. 
     Dois dos participantes do encontro em Paris foram consagrados como santos da igreja (Pierre Favre foi apenas beatificado): os espanhis Francisco Xavier, um dos possveis inspiradores do nome do novo papa  ao lado do bvio Francisco de Assis , e Incio de Loyola. Missionrio por excelncia, Xavier levou sua pregao a Goa, possesso portuguesa na ndia,  China e ao Japo. Mais do que a do companheiro Loyola, sua biografia mistura-se a histrias de milagres e portentos: um caranguejo teria certa vez lhe devolvido um crucifixo que cara no mar, e consta que o cadver do santo  ele morreu na China, em 1552  no se decomps ao longo dos quinze meses entre o falecimento e a chegada a Goa. Mas Incio de Loyola  o fundador e o grande terico da Companhia de Jesus. Nascido em 1491, na juventude ele se dedicou  carreira militar, abreviada em um combate contra os franceses, em 1521, em Pamplona, quando uma bala de canho dilacerou suas pernas. Na lenta e dolorosa convalescena, lendo obras devocionais sobre a vida de Cristo, Loyola decidiu consagrar sua vida  f. Seu empreendimento caiu nas boas graas do papa Paulo III, que deu a aprovao cannica  nova ordem, em 1540. Loyola foi o primeiro superior-geral dos jesutas, e nesse posto morreu, em Roma, em 1556. Legou  ordem os Exerccios Espirituais  uma srie de oraes e meditaes a ser seguidas, com rigor, ao longo de um ms  e um cdigo de disciplina estrito: o jesuta deveria ser obediente "como um cadver" (perinde ac cadver, na frmula latina). Outra citao clebre do santo recomenda que, se a Igreja disser que aquilo que vemos como branco  na verdade preto, se aceite o que a Igreja diz, por dever de obedincia. 
     O combate ao protestantismo nascente no estava na ordem imediata de prioridades de Incio de Loyola. Os jesutas, porm, logo ocuparam a linha de frente da Contrarreforma. "No h hoje nenhum instrumento erguido por Deus contra os hereges maior do que sua ordem sagrada", dizia Gregrio XIII, papa de 1572 a 1585. A Companhia tambm foi a ponta de lana do catolicismo na colonizao da Amrica. Com mpeto aventureiro, embrenhou-se nas matas, fundou colgios e povoaes e converteu povos indgenas reunidos nas suas Redues. "Esta terra  nossa empresa", disse Manuel da Nbrega, chefe da primeira misso jesuta no Brasil. Nbrega e o companheiro de ordem Jos de Anchieta fundaram, em 1554, o colgio do Planalto de Piratininga, embrio da cidade de So Paulo. Os objetivos religiosos dos jesutas nem sempre coincidiam com as ambies terrenas dos europeus que se aventuravam na Amrica selvagem. Por se oporem  escravizao dos ndios, jesutas como Nbrega, Anchieta e, j no sculo XVII, Antnio Vieira andaram s turras com os colonos portugueses. Os jesutas no tinham pruridos em recorrer s armas quando necessrio  na Guerra dos Trinta Anos, houve inacianos que apontaram canhes para tropas protestantes , mas, no geral, acreditavam na propagao da f antes pela persuaso do que pela espada. Tambm se dedicavam a entender minimamente a cultura dos povos que pretendiam catequizar: Anchieta aprendeu tupi, e o jesuta italiano Matteo Ricci, missionrio na China no fim do sculo XVI, foi o primeiro tradutor ocidental de Confcio. Houve quem idealizasse essa propenso intelectual dos inacianos, vendo a uma espcie de multiculturalismo avant la lettre. Mas o fim ltimo sempre foi o crescimento da Igreja: Ricci s se dedicou ao pensamento de Confcio porque viu nele compatibilidades com o cristianismo; Anchieta e outros missionrios na Amrica s aprenderam lnguas nativas porque isso era necessrio  catequese dos ndios. Poderosos, numerosos, cultos, os jesutas eram alvo de muito rancor, dentro e fora da Igreja, e no estranha que s agora um jesuta tenha chegado ao papado. Foram costumeiramente associados a fantasiosas conspiraes para assassinar monarcas. No sculo XVIII, os inimigos da ordem teriam seu momento de triunfo. Governante de fato no reinado do dbil Jos I, Sebastio Jos de Carvalho e Melo, futuro marqus de Pombal, considerava a ordem uma ameaa ao poder central da coroa  e a expulsou de Portugal e de suas colnias em 1759. Seguiu-se um decreto do mesmo teor na Frana, em 1764. Em 1773, finalmente, o papa Clemente XIV, sob presso das monarquias europeias, extinguiu a ordem. Catarina, a Grande, optou por ignorar a determinao papal, e a Companhia de Jesus seguiu forte e atuante no imprio russo. A reabilitao efetiva dos jesutas viria s em 1814. 
     Hoje, sob o comando do superior-geral Adolfo Nicols, um espanhol, a Companhia de Jesus  a maior ordem da Igreja Catlica, com cerca de 19.000 membros em mais de 130 pases. No mundo todo, administra 180 colgios e 200 universidades e faculdades (seis no Brasil). Em face das foras agressivamente temporais dos sculos XIX e XX, a Companhia teria reaes variadas. Em consequncia de sua adeso  Action Franaise, malogrado movimento de extrema direita do entreguerras, o francs Louis Billot, um jesuta, foi o nico cardeal do sculo XX a ser forado pela Igreja  renncia. Na II Guerra, porm, houve jesutas que protegeram judeus e foram mortos em campos de concentrao. O credo marxista da Teologia da Libertao teve sua penetrao na ordem, que, no entanto, tambm abriga conservadores como Jorge Mrio Bergoglio, agora papa Francisco. Sob essa aparente variedade, porm, esto as diretrizes que o ex-soldado Incio de Loyola deitou no sculo XVI: disciplina, educao, mpeto missionrio  provveis linhas de fora do novo papado. 


4. A IGREJA NA POLTICA  E AGORA CRISTINA?
Nestor considerava-o seu nico verdadeiro opositor. Cristina herdou o crtico severo. Bergoglio se tornou papa, sabe muito bem quem so os Kirchner e no vai esquecer.
NATHALIA WATKINS E ANDR ELER, DE BUENOS AIRES

O verdadeiro representante da oposio." Foi assim que o ex-presidente argentino Nestor Kirchner definiu o arcebispo de Buenos Aires, Jorge Mrio Bergoglio  o agora papa Francisco. Em suas homilias dominicais na Catedral Metropolitana, Bergoglio mandava mensagens speras para os governantes na Casa Rosada. Distante das colunas que sustentam o frontispcio da catedral, porm, ele se revelava ainda mais incmodo. Em um pas onde a poltica  disputada nas trincheiras, reunia-se frequentemente com os principais lderes da oposio e setores marginalizados pelo governo. "O novo papa  o religioso mais politizado que poderamos ter", diz Jlio Burdman, cientista poltico da Universidade de Belgrano, em Buenos Aires. "Ele  metade telogo, metade poltico." As rusgas com o governo atingiram o pice entre 2009 e 2010, quando a presidente Cristina Kirchner e o marido, Nestor, impulsionaram no Congresso uma lei do Partido Socialista para regulamentar o casamento entre homossexuais. De alguns expoentes da oposio, ouvia-se que a iniciativa no passava de uma investida pessoal de Nestor para atingir seu rival de batina. O confronto entre o cardeal e o kirchnerismo renasce agora com a nomeao de Bergoglio, apenas protocolarmente comemorada por Cristina e j muito explicitamente politizada pela presidente. 
     Como arcebispo da capital, Bergoglio liderou uma campanha nacional contra a lei pelo matrimnio homossexual, convocando os fiis a protestar s portas do Congresso. Em uma cidade conhecida pelo liberalismo de seus costumes e por ser um dos principais destinos tursticos da comunidade gay, o cardeal ousou defender princpios que a Igreja considera imutveis. "Aqui tambm est a inveja do Demnio, pela qual entrou o pecado no mundo, que arteiramente pretende destruir a imagem de Deus: homem e mulher que recebem a ordem de crescer, se multiplicar e dominar a terra", escreveu, em uma carta. Cristina rebateu dizendo que "o discurso dos lderes da Igreja parece do tempo das Cruzadas". 
     A relao com o casal presidencial j havia se transformado numa guerra surda em 2004. Um ano depois da posse de Nstor Kirchner, Bergoglio alertou, em uma homilia, para os riscos dos "anncios estridentes" e do "exibicionismo", definindo, ainda bem cedo, o que viria a ser a essncia do governo argentino. Em 2005, Nstor, pouco afeito  religio, cancelou sua presena na missa que ocorre na catedral todo dia 25 de maio para celebrar a independncia do pas. "Nosso Deus  de todos, mas cuidado que o diabo tambm chega a todos, aos que usam calas e aos que usam batina", disse o presidente, em uma mais do que explcita referncia ao adversrio. Trs anos depois, quando os agricultores paralisaram as estradas contra uma lei que aumentava os impostos sobre as exportaes, Bergoglio sentou-se com os trabalhadores para, em seguida, pedir a Cristina que tivesse "um gesto de grandeza" que resolvesse o conflito. No foi atendido. 
     O episdio marcou a radicalizao do kirchnerismo e deu incio  perseguio ao grupo de comunicaes Clarn, crtico do governo. Em uma nao onde a oposio poltica foi reduzida a p, o arcebispo foi uma das poucas vozes que insistiram em incomodar os ouvidos dos Kirchner. Aps a morte de Nstor, em 2010, Cristina, catlica praticante, retomou os contatos com a Igreja. A iniciativa, mais o fato de ela ser, como o novo papa, contrria ao aborto, prenunciava uma trgua com o cardeal. Mas a votao sobre o casamento gay de novo os separou, e um velho assunto entrou em pauta para reforar a discrdia: a relao do governo com a comunidade judaica na Argentina, a maior da Amrica Latina. Favorvel ao dilogo entre as crenas, Bergoglio aproximou-se dos rabinos depois do atentado contra a Associao Mutual Israelita Argentina (Amia), em 1994, que deixou 85 mortos e mais de 300 feridos no centro de Buenos Aires. Cristina Kirchner seguiu na direo oposta. H dois meses, supostamente com o propsito de encontrar os responsveis pelo atentado, ela formalizou com o Ir um acordo cujas condies favorecem muito mais o escamoteamento do que o esclarecimento dos fatos e a punio dos culpados. At agora, as investigaes apontam para a autoria do grupo radical libans xiita Hezbollah, financiado pelos iranianos. "Estes ltimos dias tm sido difceis para Cristina", diz o cientista poltico argentino Orlando D'Adamo, do Centro de Opinio Pblica da Universidade de Belgrano. "H duas semanas, ela perdeu seu maior aliado, Hugo Chvez. Agora viu seu opositor tornar-se papa." 
     Em Roma, a intromisso do novo papa em temas mundanos deve arrefecer  como arrefeceu o poder temporal desde a Reforma Protestante, que reduziu os limites do papado na Europa, e o surgimento de movimentos como o Renascimento e o Iluminismo, que favoreceram a razo e enfraqueceram os pilares do poder divino. Mesmo assim, so diversos os exemplos de representantes da Igreja que se imiscuram no jogo do poder nas ltimas dcadas. 
     Pio XII, que comandou a Igreja durante a II Guerra, foi o exemplo mais controverso. Por um lado, conseguiu manter-se neutro o suficiente para poupar Roma de um ataque destruidor. Usando de sua habilidade diplomtica, evitou que hospitais, escolas e templos catlicos fossem destrudos por tropas nazistas e fascistas ao redor da Europa. Contudo, no se furtou a costurar acordos com os regimes da Alemanha e Itlia em torno de disputas entre Igreja e estado. O fato de ter resolvido questes administrativas importantes para a instituio nesses pases no o livrou de ser lembrado como o papa que, em nome da defesa dos interesses da Igreja, cruzou os braos diante da morte de milhes de judeus. Saiu-se um pouco melhor no confronto verbal com Josef Stalin. Por meio do primeiro-ministro ingls Winston Churchill, com quem se encontrou aps a Conferncia de Ialta, a qual redefiniu os contornos da Europa e do mundo ps-guerra, Pio XII soube que o lder sovitico havia se referido a ele com ironia. Ao tomar conhecimento de que o papa pedira o fim da opresso aos catlicos, Stalin perguntou: "O papa? Quantas divises (exrcitos) ele tem?". Resposta de Pio XII: "Ele encontrar nossas divises no cu". 
     Os regimes totalitrios que Stalin implantou  fora no Leste Europeu ruiriam nas mos de outro papa, o polons Joo Paulo II. Logo aps sua nomeao, ele afirmou sua inteno de visitar a Polnia, at ento isolada atrs da Cortina de Ferro. Na ocasio, o presidente sovitico Leonid Brejnev orientou o Partido Comunista daquele pas a no receber o papa  sem sucesso. No que se tornou a viagem mais importante do pontificado de Joo Paulo II, mais de 10 milhes de pessoas, quase um tero da populao, saram s ruas para receb-lo. O comparecimento das multides deixou claro que, por baixo da cortina, a Polnia era o mais catlico dos pases sob o domnio dos governos comunistas ateus. A viagem abalou o regime e fortaleceu seus opositores, como o sindicato Solidariedade. Nascida clandestina, a entidade foi reconhecida meses depois, em negociaes com o governo. Em um gesto simblico, o lder do movimento, o operrio Lech Walesa, sacou do bolso uma caneta com o retrato do papa na hora de assinar o documento do sindicato. A relao entre o papa e Walesa, mais tarde eleito presidente da Repblica, foi fundamental no s para a abertura da Polnia, mas para todo o Leste Europeu. As pregaes de Joo Paulo II contra o totalitarismo aproximaram o pontfice dos Estados Unidos e o integraram ao tabuleiro da Guerra Fria. Mais tarde, ajudaram no desmonte dos pases sob a esfera sovitica e na instaurao de vrios governos democrticos em toda a regio. 
 cedo para saber quais bandeiras o papa Francisco vai tomar para si, mas o mais provvel  que os assuntos internos da Argentina sejam reduzidos  sua devida dimenso. O pas vive a euforia de ser o bero do primeiro papa latino-americano. Na quinta-feira, um jornal portenho anunciou a escolha de Bergoglio com a manchete "La mano de Dios", uma referncia ao gol irregular feito na Copa do Mxico, em 1986, por Maradona (que agora ter de conviver com mais algum lhe fazendo sombra, alm de Lionel Messi). 
     No dia anterior, o anncio do papa argentino havia levado milhares de portenhos a se aglomerar em frente  Catedral de Buenos Aires. A algazarra que se formou l podia ser ouvida at da Casa Rosada. Mesmo assim, s duas horas depois que as notcias do Vaticano j tinham corrido o mundo a presidente Cristina Kirchner divulgou uma carta parabenizando seu conterrneo. 
     Do cumprimento frio  que no mencionava nem o nome do cardeal nem o fato de ele ser argentino , a presidente seguiu sem escalas para a provocao. Disse desejar que, "em sua misso pastoral, ele (o novo papa) carregue uma mensagem para que as grandes potncias mundiais dialoguem. Que as grandes potncias do mundo, que tm armas e poder financeiro, possam ser finalmente convencidas de que devem dar ateno aos pases emergentes e que elas se comprometam com um dilogo de civilizaes, em que as coisas so resolvidas pela via diplomtica e no pela fora". Mais do que uma referncia disfarada  derrota argentina na disputa com a Inglaterra pelas Ilhas Malvinas, os "cumprimentos" da presidente soaram como uma tentativa de colocar o adversrio no ringue, e bem perto das cordas. Para desgosto de Cristina, porm, o papa Francisco no deve ceder ao seu chamado. Sua ptria agora  o mundo. A Argentina ter de esperar. 


ELE LAVOU AS MOS?
     A acusao de que o cardeal Bergoglio entregou  ditadura militar argentina dois padres acusados de subverso tem poucos elementos que a sustentam, muitos que a enfraquecem e pelo menos um que ajuda a fazer com que a sua discusso seja obscurecida pela paixo. Em 1976, os jesutas Orlando Yorio e Francisco Jalics foram presos e levados para a Escola Superior de Mecnica da Armada, que de superior mesmo tinha apenas o emprego de tcnicas de tortura. Yorio e Jalics ficaram seis meses presos, foram torturados mas escaparam da morte, destino de 150 outros religiosos assassinados pelo regime entre 1976 e 1983. 
     Jalics, que hoje vive na Alemanha, relata em um livro que, pouco antes de sua priso, pediu a "um homem" que fizesse saber aos militares que ele e Yorio no eram terroristas. Esse homem, cujo nome ele no revela, teria descumprido a promessa e feito "uma falsa denncia" sobre eles aos militares. A concluso de que esse homem seria Bergoglio  de Horacio Verbistky, um jornalista que trabalhava ao mesmo tempo para os esquerdistas e para os militares. Horacio diz ter tido acesso a uma carta que Yorio mandara a um amigo antes de morrer em que ele acusa Bergoglio. 
     Alice Oliveira, militante de direitos humanos e ex-juza,  uma das testemunhas isentas que absolvem Bergoglio da acusao. Na biografia que escreveu sobre o cardeal, O Jesuta, o jornalista Srgio Rubn conta que durante o regime militar Bergoglio protegeu alunos e deu os prprios documentos de identidade a um estudante parecido com ele para que escapasse pela Trplice Fronteira. Bergoglio nunca foi acusado de colaborar com o regime em nenhum dos inquritos oficiais. O prprio cardeal, em um relato nunca contestado, contou ter persuadido o padre que rezava missas para o ditador Jorge VideLa a dizer que estava doente, para substitu-lo na funo e interceder pessoalmente pela libertao dos jesutas  o que de fato ocorreu. As circunstncias em que esses fatos se passaram ficou conhecida como "a guerra suja"  e em uma guerra a primeira vtima  a verdade. No  surpresa que essas acusaes tenham sido ressuscitadas pouco antes de Bergoglio ser escolhido papa e tenham ganhado corpo depois de sua eleio. Ele  critico da presidente Cristina Kirchner, o que para seus fanticos seguidores constitui um pecado mortal.

COM REPORTAGEM DE TMARA FISCH


